O que fazem aquelas mãos para o alto?
Seria Deus ou assalto?
Espreguiça-se o homem e boceja a santa. Sono e tédio e duas colheres de descrença.
Desconfiança...
Meio copo para cada.
Certo dia Deus me apresentou a outra face.
(deus) - Se me bater de novo eu lhe capo!
(sujeito I) - Perdoai, Senhor! É a ti que temo e tenho amor! Perdoai!
E a santa fumava... Entre uma baforada e outra, sorria, e dizia:
- Ninguém perguntou se eu queria um altar.
Verdade e ousadia. Teimosia, mas ela podia. De tanto que sabia prendera o rabo divino.
(deus) - Num se meta, não! Deixe comigo, eu me resolvo. É assunto de homem, maldição!
(sujeito I) - Me empresta a caneta?
(deus) - Cheque ou poema?
(sujeito I) - Sua parte no trato.
(deus) - Trintinha foi pouco.
(santa) - Pouco tu vales. Quase nada, na verdade.
(sujeito II) - Mão pra cima todo mundo, é um assalto!
(deus) - Mas eu sou Deus!
(sujeito II) - E tu, o Diabo?
(sujeito I) - Nada, sou poeta.
(santa) - Pleonasmo.
(sujeito II) - Pronto, esteja preso!
(deus) - E não era um assalto?
(sujeito I) - É mesmo...
(sujeito II) - O Senhor, fique calado!
(sujeito I) - E o meu advogado?
(deus) - Eu sou o advogado.
(sujeito II) - Do Diabo?
(deus) - É...tá assustado?
(santa) - Ah, esses dois têm um trato.
(sujeito II) - Complicado... Tá bom. É um assalto! Me passe o cheque!
(sujeito I) - Tá sustado.
(sujeito II) - Canalha, safado!
(deus) - Eu lhe falei, eu avisei. Olhe que eu capo...
(sujeito II) - Já chega! Circulando, os três!
(santa) - Eu? Do altar?
(sujeito II) - A senhora fica, mas apague o cigarro.
Dodô Cavalcante
Dodô Cavalcante
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